A GUERRA FRIA

A GUERRA FRIA

O sociólogo francês Raymond Aron(1905-1983)  sentenciou sobre a Guerra Fria: “Guerra Improvável, paz impossível”. Isso porque os arsenais nucleares, pós Segunda Guerra Mundial (1937-1945), das duas maiores potências mundiais (Estados Unidos e da extinta União Soviética), se acionados, teriam uma inimaginável capacidade de destruição do mundo.  Sendo assim, uma guerra com um potencial tão devastador não interessava a ninguém, nem a um possível vencedor. Isso porque, se conseguisse desenvolver a capacidade de vencer, a ele sobraria apenas devastação e contaminação nuclear. Contudo, este período de medo, tensão e disputa pela hegemonia, que começou ao final da Segunda Guerra Mundial (1945) e se prolongou até a queda do muro de Berlim em  1989 e a extinção da União Soviética, em 1991, resultou numa guerra ideológica onde cada potência buscou defender que seu sistema econômico, político e social era melhor  que o do adversário. Sendo assim, este período foi conhecido como GUERRA FRIA.

A corrida armamentista (armas convencionais, químicas, biológicas e nucleares – bomba atômica)  ocorreu paralela à corrida espacial, o que gerou um grande avanço científico e tecnológico mundial proporcionado pelas duas maiores potências mundiais: União Soviética (socialista) e os Estado Unidos (capitalista). Os processos históricos e o pioneirismo soviético não alcançaram seus objetivos socialistas e comunistas mas geraram um impulso essencial para a exploração espacial e para conquistas sociais e trabalhistas em todo o mundo afetando as estruturas econômicas dos países capitalistas.

No Brasil, a GUERRA FRIA também marcou sua influência.  Naquele momento, os EUA apareciam como os defensores da “democracia” no combate ao “comunismo” e eram dos principais incentivadores dos golpes e ditaduras latino-americanas que se sucediam com sua forte influência e suporte militar e financeiro. No governo de Getúlio Vargas, ainda nos anos 30, a radicalização do processo político, tanto à direita quanto à esquerda, gerou movimentos expressivos de abrangência nacional. A AIB (Ação Integralista Brasileira) inspirada no fascismo italiano, de início deu sustentação ao governo Vargas, principalmente contra o “comunismo”. A ANL (Aliança Nacional Libertadora), inspirada nas lutas populares contra o fascismo que crescia na Europa, fazia oposição acirrada ao regime de Vargas e, em 1935, deflagrou um movimento que foi reprimido com singular intolerância. A revolta, chamada de “Revolta Comunista”, serviu de pretexto para fechamento do regime e declaração de Estado de Guerra no país e, com a aprovação da Lei de Segurança Nacional, limitou a democracia, instaurou censura aos meios de comunicação e prisão contra manifestação e greves. Enfraquecido e sem apoio do Congresso para evitar as eleições democráticas, o governo de Vargas divulga o Plano Cohen. O Plano Cohen foi um documento que relatava uma preparação de uma insurreição comunista no Brasil que, embora falsa, serviu aos seus objetivos de impedimento das eleições, fechamento do Congresso por tropas da Policia Militar e manutenção de Vargas no governo dando início a um  regime autoritário conhecido como ESTADO NOVO que vigorou de 1937 a 1945.

Sob forte influência da democracia e do anti-autoritarismo que dominava o mundo com o fim da Segunda Guerra, o Estado Novo se enfraquece, Vargas perde sustentação. Acontece, então, a primeira eleição efetivamente democrática no Brasil com ampla participação representativa e Eurico Gaspar Dutra é eleito. Contudo, muitos historiadores negam essa experiência democrática pelo fato de que o PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi posto na ilegalidade e o movimento operário foi reprimido. Outros historiadores alegam que com o clima beligerante da GUERRA FRIA (que dominou o mundo após o fim da Segunda Guerra Mundial), era quase impossível a qualquer país sair imune aos conflitos entre Estados Unidos e União soviética. O forte sentimento anti-comunista também influenciou a política em outros países onde não se nega que a democracia estava instaurada. Além disso, durante os governos posteriores de Juscelino Kubitschek e João Goulart, pecebistas agiram livremente mesmo em situação de semilegalidade. A polêmica sobre a questão democrática pode até existir e permanecer sendo debatida. Mas  o que não deixa dúvidas é que a hipotética ameaça comunista foi -e continua a ser- usada como motivação e ferramenta de manipulação da opinião pública para sucessivos golpes no Brasil.

Sob o comando de João Goulart – Jango (1962-1964), o governo fortaleceu as políticas sociais, trabalhistas e agrárias. Além disso, uma aproximação com a União Soviética, gerou conflitos entre o governo e lideranças militares, políticas e econômicas preocupando a classe burguesa e empresarial brasileiras e investidores estadunidenses. Essa conjuntura propiciou a deposição de Jango e o golpe militar de 31 de março de 1964 levando o Brasil a uma ditadura que durou 21 anos.

A partir do golpe empresarial-militar de 1964, a ESG (Escola Superior de Guerra) passou a formar o quadro administrativo do governo. Desde o início da Guerra Fria os militares brasileiros passaram a frequentar a recém criada Escola das Américas (A “School of the Americas”, nos EUA, conhecida como escola de ditadores). As Forças Armadas treinavam oficiais que, usando a Doutrina de Segurança Nacional baseada na luta contra o comunismo, instituiu uma política de forte repressão contra os chamados “inimigos internos” no Brasil, por meio da Lei de Segurança Nacional. Esses “inimigos internos” eram definidos pela bipolarização da GUERRA FRIA que dividia o mundo entre a “democracia” dos Estados Unidos e seus aliados contra o “comunismo” da União Soviética e demais países “comunistas”. Como uma das estratégias de repressão aos “inimigos internos”, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI). Suas atividades se estenderam em todo o território nacional se tornando o órgão de repressão mais importante do governo ditatorial. Sua ação abrangia desde os órgãos governamentais, até universidades e empresas estatais e privadas. “(…) a Doutrina da Segurança Nacional fazia uma comparação entre segurança e bem-estar social. Ou seja, se a “segurança nacional” está ameaçada, justifica-se o sacrifício do bem-estar social, que seria a limitação da liberdade, das garantias constitucionais, dos direitos da pessoa humana.” (COIMBRA, 2008, p.5)

 

Autora: Ana Cláudia Bessa, graduanda em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, pesquisadora, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculada ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”.

 

 

FONTES:

http://www.paginainternacional.com.br/guerra-improvavel-paz-impossivel/

https://jornal.usp.br/atualidades/o-espaco-foi-a-nova-fronteira-da-guerra-fria/

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/o-brasil-na-guerra-fria.htm

ROLLEMBERG, Denise e QUADRAT, Samantha. “Apresentação” In A construção Social dos Regimes Autoritários. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2010.

PANDOLFI, Dulce Chaves. Os anos 1930: as incertezas do regime. In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org.). O Brasil Republicano: o tempo do nacional-estatismo – do início da década de 1930 ao apogeu

FERREIRA, Jorge. “Apresentação”. In: Dossiê 1946 – 1964: a experiência democrática no Brasil. Revista Tempo, número 28, junho 2010, pp. 11-18.

COIMBRA, Cecilia M. B.. Histórias Negadas. In: Ansara, S.. (Org.). Memória Política, Repressão e Ditadura no Brasil. Curitiba: Juruá, 2008, v. , p. 8-11. Disponível em  https://app.uff.br/slab/uploads/texto65.pdf , acessado em 29/10/2019.

 

FILMES RELACIONADOS

-Utopia e Barbárie https://www.youtube.com/watch?v=cn9li_NePro

-Jang0 http://cinemaeditadura.com.br/?s=jango

-Adeus, Lenin. (ainda estamos buscando para nosso acervo)

 

 

 

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