Arte Engajada

A arte é um dos meios mais eficientes de se articular frente à determinada situação – aqui a ditadura empresarial-militar de 1964 – assim como trabalhar os rastros e a memória. A arte se estabelece, na verdade, como uma forma de se fazer política e militância.
Na ditadura empresarial-militar de 1964, é interessante notarmos a figura dos censores e o quanto a forma de se pensar arte e cultura rodeava diversas estratégias de driblar suas análises. Artistas foram exilados, peças de teatro, músicas, filmes nem chegaram a circular. Mas essa forma de driblar as análises refletiram em diversas formas de se trabalhar as letras, manipular cenas e enquadramentos no cinema, assim como frases bastante pontuais que de modo elíptico e metafórico procuravam escapar aos olhos da censura.
No filme ‘’Terra em Transe’’ de Glauber Rocha, por exemplo, temos a famosa frase ‘’a praça é do povo e o céu e do condor’’. O pseudônimo de Chico Buarque, ‘’Julinho da Adelaide’’, após ser preso e se tornar talvez o artista mais odiado pelos censores ou até mesmo as apresentações do grupo ‘’Secos e Molhados’’, onde as maquiagens e as danças extravagantes eram vistos como uma forma de “atentado a moral e aos bons costumes”.
Por fim, é fato de que hoje a arte possui essa presença crucial em toda a reconstrução e revisão do período da ditadura empresarial-militar de 1964. Se antes a arte militava contra o terror do Estado, hoje vemos uma luta a favor de toda a revisão e reconstrução desse passado. As músicas continuam circulando, os filmes da época ainda são assistidos assim como as peças relembradas. Depoimentos são dados por diversos artistas sobre sua experiência em forma de documentários – assim como o depoimento de vítimas e parentes de vítimas – e filmes que através de sua narrativa e estética nos trazem diversos olhares e interpretações sobre as dificuldades do período e o terror do estado, enxergando hoje no campo da arte ainda todo um espaço de luta e preservação da memória do lado dos oprimidos.

“A arte existe para que a verdade não nos destrua.” Nietzsche.

 

Autor: Victor Hugo de Arruda Aranha Barbosa, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da Linha de Pesquisa “Cinema e Ditadura em Plataforma Virtual”, ligado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”

 

Filmes relacionados a esta temática:

Glauber – O Filme, Labirinto do Brasil

MPB nos Tempos da Ditadura

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