Estudantes

Os estudantes sempre desempenharam papel fundamental nas relações políticas da sociedade. É a sua posição social na influência dos grupos, a sua forte presença nos momentos de transição política, que percebemos tanto o caráter intelectual, quanto ativista do grupo. Observe as inúmeras manifestações sociais, políticas e culturais que perpassaram as sociedades modernas e contemporâneas, que logo perceberá a presença dos estudantes como essencial na derrubada e instauração de governos. Ora como participante da construção cultural da política do Estado, ora pela manutenção e garantia dos direitos infringidos por este. Na ditadura que se iniciara no Brasil, em 1964, o papel dos estudantes nas movimentações sociais e políticas não seria diferente, já contava com o fato de se encontrar em um contexto mais consolidado enquanto grupo, assumindo posição significativa, tendo reconhecimento institucional desde 1937, com a fundação da UNE  (União Nacional dos Estudantes). O movimento estudantil serviu e serve como veículo de articulações e manifestações da sociedade brasileira frente às imposições de regimes ditatoriais. 

A história da UNE durante a ditadura representa bem simbolicamente o processo político vivido pelos estudantes no regime. Representando a entidade central dos espaços estudantis – Grêmios, Diretórios e Centros Acadêmicos, por meio da UNE articulava-se diversas comunicações entre os espaços e lideranças estudantis do país. Em função de suas alianças e identificação aos grupos depostos pelo regime em 1964 – grupos identificados pelos ideais das reformas de base, entendemos melhor o porquê dos apoiadores da ditadura enxergarem a UNE e seus membros como subversivos e consequentemente representantes do próprio comunismo no Brasil. Em 1° de abril de 1964 marca-se o inicio da perseguição e censura aos estudantes pelo eventual saqueamento e destruição da sede da UNE, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, onde uma organização pró-regime chamada CCC – Comando de Caça aos Comunistas – tomou frente da agitação anticomunista. As perseguições que se desencadeiam de abril em diante foram suficientes para retardarem a luta dos estudantes por mais ou menos três anos, até que, em 1968, as manifestações estudantis voltam a representar peso nas mobilizações e protestos, mesmo já apresentando retomada de força em 1966, a famigerada “setembrada”, representando o primeiro dos grandes protestos estudantis nas ruas pelo país depois do golpe. Talvez o dos mais marcantes fatos históricos que consolidou a volta do grupo seja a morte do estudante Edson Luís, morto no restaurante universitário da UFRJ, o “Calabouço”. No dia 25 de junho, uma passeata que reúne 100 mil pessoas nas ruas cariocas, em repúdio ao assassinato de Edson Luís, demonstra não só o luto, mas um descontentamento geral da sociedade de um regime que já perdurava a quatro anos no poder. Entretanto, no mesmo ano, ano de vigência do quinto ato institucional, os protestos que emergiam eram interrompidos antes mesmo que pudesse tomar qualquer proporção, a repressão ao 30° congresso da UNE espelha o reflexo do que viria a ocorrer naquele ano e seguintes. É Somente em 1974 que o movimento estudantil volta a ressurgir e a manifestar presença nas manifestações de rua, pois no rastro dos anos da ditadura muitas mortes e prisões tomaram conta também de líderes e membros estudantis, ninguém estava livre.  

Um importante evento a ser citado são os acordos do MEC-USAID, com a lei 5.540/68, onde a atuação do órgão estadunidense, USAID, teria como foco a manutenção e garantia da vigência do sistema capitalista dos EUA, transferindo aos países periféricos toda sua organização política, social e econômica. As instituições brasileiras que tiveram principal entrada destas reformas foram as de ensino superior. Por meio deste acordo e por baixo de justificativas de modernização e progresso da sociedade brasileira, o objetivo norte-americano era claro, em contexto de guerra fria e expansão soviética, deveriam eles reter a sua expansão ao ocidente americano por meio de investimentos e importações de modelos políticos. É também por meio do sistema educacional que a imposição norte-americana se dava no país. 

Mesmo que faltem inúmeros eventos a serem citados que ocorreram na ditadura, o que se tira do pouco apresentado é como que os estudantes e suas entidades, marcaram presença na luta política, tanto por sua ‘redemocratização’, quanto na própria tomada de poder pela presença popular e revolucionária, e o quanto que foram perseguidas, censuradas, presas, torturadas e mortas. Através de alguns filmes que buscam narrar esta luta, entenderemos como que a indústria cinematográfica captura esta intervenção e para onde da movimentação estudantil ela aponta sua lente.

Autor: Gabriel Mamede, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”. Bolsista de Iniciação Científica/UFF.

Filmes relacionados:

Infância Clandestina – Benjamim Ávila (Drama, Argentina, 2012)

Machucca – Andrés Wood (Drama, Chile, 2003)

 

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