Evangélicos

A elaboração deste verbete, dependeu em grande parte da tese de doutoramento de Adroaldo José Silva Almeida, “Pelo Senhor, marchamos” (2016), tese em que o autor explora a participação dos grupos religiosos evangélicos, na ditadura empresarial-militar brasileira. A partir deste estudo acadêmico, traçamos um panorama binário das participações políticas e sociais evangélicas na ditadura de 1964, tanto em sentido de adesão ao autoritarismo do Estado, quanto grupo de resistência democrática. O que de fato vislumbramos mostrar, é a sua contribuição política a um período de vinte e um anos ditatoriais. A reduzida referência bibliográfica sobre a participação dos evangélicos no período, se dá ao fato de poucos estudos acadêmicos e não a ideia de apatia política por parte desses religiosos. 

O binarismo interpretativo das ações políticas evangélicas na ditadura, ocorre em função de uma já recorrente análise sociológica dos conflitos, entre situacionismo e oposição, os evangélicos neste caso não deixaram de compor esse espaço analítico. Diversos autores que elaboraram estudos de tais grupos religiosos, que ora estiveram em favor do Estado e ora estiveram contra ele, demonstram evidências significativas. Saulo Baptista, pentecostais e neopentecostais na política brasileira, relaciona que a atuação política de lideranças evangélicas, estavam baseadas em valores tradicionais da cultura brasileira (autoritarismo, clientelismo e seus correlatos), evidenciando o caráter moralista e fundamentalista religioso de tais grupos. Entretanto, nos estudos da historiadora Elizabeth da Silva, grupos ecumênicos e progressistas evangélicos do interior da Bahia, desenvolviam projetos sociais e políticos em oposição ao Estado – Serviço de Integração do Imigrante (SIM) e Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER). O líder camponês Manoel da Conceição, também representa uma exceção segundo a teoria de Saulo Baptista, militante das causas agrárias e resistência da grilagem do campo maranhense, Manoel assume protagonismo importante na discussão sobre política e religião como forma de luta popular, nos deixando claro, o pluralismo de concepções religiosas sobre política. Mas entre um impasse de ampla contestação e reduzida documentação histórica, o grupo dos evangélicos, em sua maioria, demonstraram apoio e adesão ao regime militar brasileiro. Um fato marcante desta afirmação, é dado ao fato de que Ernesto Geisel frequentava a igreja Evangélica de Confissão Luterana, um marco muito poderoso quando pensamos na representatividade política de um líder para e com sua população. 

Entender o papel do evangelho, tanto quanto instituição e crença na ditadura empresarial-militar brasileira, é um passo importante no debate religioso e político do período, o que buscamos através da seleção de alguns filmes é trazer pela sétima arte um tema até agora negado tanto pela academia, quanto pela sociedade. Possamos assim compreender melhor um grupo que na atualidade política, constitui um dos mais poderosos grupos, com sua rápida ascensão e influência parlamentar.

Autor: Gabriel Mamede, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”. Bolsista de Iniciação Científica/UFF.

Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Adroaldo. Pelo Senhor, marchamos. 2016. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2016.

BAPTISTA, Saulo. Pentecostais e neopentecostais na política brasileira: um estudo sobre cultura política, Estado e atores coletivos religiosos no Brasil. São Paulo: Annablume; São Bernardo do Campo: Instituto Metodista Izabela Hendrix, 2009.

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