Exílio

O termo exílio advém do latim, exiliumque significa: ser banido ou retirado de seu espaço, isto é, conota o sentido da expulsão compulsória a indivíduos de sua ‘terra natal’, em que os motivos e os agentes do banimento variam em questões políticas, sociais, econômicas, religiosas, míticas e históricas. Os exilados políticos da ditadura empresarial-militar brasileira, de 1964, chega a um respeitável número de 10.000 pessoas, são condições suficientes para se confirmar que a perseguição política imposta pelos militares se impunha violentamente a nossa população – entre Março e Agosto de 1964 houve um total 50.000 presos. Eram diversos os grupos e pessoas exiliadas pela ditadura, iam desde guerrilheiros, a intelectuais, políticos, líderes religiosos, sindicalistas e até artistas, demonstrando quais eram os principais alvos que o atual governo ditatorial (1964 a 1985) enxergava como opositores a moral e subversivos a sua ordem, e que por fim, tornavam-se suficientes de um exílio obrigatório. 

Historigraficamente o exílio político apresenta períodos de oscilações agudas, isso é, um aumento significativo do número de exilados em determinados locais e épocas. Buscar entender um pouco mais sobre o que se passava nessas épocas, é uma maneira de entender o sentido da existência desse fenômeno. Na ditadura militar brasileira, divide-se historicamente as oscilações em massa em duas partes principais: a primeira com o início e a instauração da ditadura em 1964 (cerca de 1000 pessoas é número estipulado para os primeiros exilados em massa), e a segunda com o quinto decreto institucional (AI-5) em 1968. Porém também se observa que mesmo fora desses períodos agudos, o exílio permaneceu presente, tanto no período de vigência militar, quanto depois deste, o que nos revela o fenômeno não só como uma manifestação extraordinária e pontual, mas ordinária e basilar a todo processo político ocorrido. Foram inúmeras as figuras que compunham os números maiores ou menores de cada fase ditatorial, um dos eventos mais recorrentes em contextos despóticos de um território. O exílio que atingia, mesmo que formas diferentes, das classes altas as baixas, de grupos intelectuais a operários sindicalizados ou não, mostrava-se onipresente a todos aqueles que demonstrassem insatisfação ou repulsa ao governo militar. Figuras como: Darcy Ribeiro, Gilberto Gil, frei Tito, Leonel Brizola, Glauber Rocha, Ana Montenegro, Maria Yedda Linhares, Maria Werneck de Castro e Jorge Amado, são exemplos dos que tiveram seus nomes presentes na lista dos exilados do país na época do regime e representaram a minúscula parcela dos tantos outros que tiveram, compulsoriamente, a advertência de retirada do país por prestarem ‘ameaça’ a pátria e/ou ao seu bem-estar social. Os locais dos quais os exilados se prestavam ou incontrolavelmente tinham de ir, variavam indistintamente, mas simultaneamente também se apresentavam determinados locais comuns de destino, como foram os países: Uruguai, Chile, França, Alemanha Oriental, México, etc. A inconstância dos fluxos mostrava que os países latino-americanos foram os primeiros a receber o maior contingente populacional exilado, principalmente Uruguai e Chile, e só posteriormente a grande maioria exilada – em decorrência dos simultâneos golpes de Estado na América Latina – se move rumo a território europeu, como na França por exemplo que estima-se ter recebido mais de 1000 exilados brasileiros no país.  

O fenômeno do exílio explica e expõe muitas características, até mesmo objetivos, da ditadura empresarial-militar de 64, não só uma tática política de desarticulações dos ‘quadros’, mas também uma inevitável saída para que não se caísse nas mãos do Estado, uma alternativa única para aqueles que fugiam ora das prisões, ora das torturas e mortes. O que através da sétima arte tenta-se resgatar é o drama vivido dos exilados em seus dias de exílio fora do país, trazer a tensão vivida de quem chegou a acreditar que jamais veria sua terra novamente, até aqueles que tiram suas vidas por não suportarem a dor da expulsão e solidão do exílio, e dos traumas vividos na ditadura em quanto estavam em ‘casa’ ou até mesmo fora dela, trazer esta memória do exílio é trazer ao máximo possível suas emoções. 

Autor: Gabriel Mamede, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”. Bolsista de Iniciação Científica/UFF.

Filmes Relacionados:

A Mesa Vermelha – Tuca Siqueira (Documentário, Brasil, 2012)

O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias – Cao Hamburger (Drama, Brasil, 2006)

Zuzu Angel – Sérgio Resende (Drama, Brasil, 2006)

Referências Bibliográficas:

MEMORIALDADEMOCRACIA. Exílio é a saída para milhares de brasileiros. São Paulo, 2015.

SANTOS, Desirree. Memórias de exílios: um estudo sobre trajetórias de exilados brasileiros durante a ditadura militar. In: ANAIS DO XV ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-RIO, 2012, Rio de Janeiro. Anais […]. Rio de Janeiro: ANPUH, [20–?].

 

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