Família

Aqui usaremos o termo “família” como sinônimo de fraternidade. De fato, o que se conformou entre os integrantes dos grupos de resistência ao sistema ditatorial que se instaurou no Brasil em 1964 foi um sentimento de família, carregando consigo um sentido de irmandade e fraternidade. Muitas dessas pessoas passaram a viver na clandestinidade, fugindo aos olhos do Estado para poderem lutar pelos seus ideais, o que fazia com que o funcionamento desses grupos se baseasse principalmente na confiança. Além disso todos partilhavam um mesmo cotidiano de resistência, o que os aproximava. No entanto, várias famílias consanguíneas participaram ativamente nas lutas políticas. Muitos pais, filhos, irmãos, tios, sobrinhos, etc. se envolveram nas políticas de resistência e na busca pelos corpos dos seus entes queridos.

Um caso já bem documentado é o de Carmela Pezzuti (1926-2009). Carmela era mãe de Ângelo e Murilo Pazzuti, integrantes do Comando de Libertação Nacional (COLINA) – grupo da resistência armada mineira – e foram eles os responsáveis por incentivá-la a ingressar na militância. Presa duas vezes, torturada e exilada, ela nunca entregou seus companheiros de luta e, quando fora do país, não descansou até reencontrar seus filhos. Esse é apenas um exemplo, há também a família Grabois, a família Zerbini, dentre muitas outras. É válido mencionar também que o Movimento Feminino pela Anistia, gênese do movimento brasileiro pela anistia, foi iniciado em 1975 por 8 mulheres que tiveram seus maridos torturados e assassinados, e que conquistou enorme apoio de muitas outras esposas, mães e irmãs que tiveram seus parentes presos ou exilados.

É importante, porém, também lembrarmos que no mês de Março de 1964 ocorreram as chamadas “Marcha da Família com Deus pela liberdade”, atos públicos em resposta ao discurso de Jango, do dia 13 de Março de 1964, onde o mesmo prometia as ditas “Reformas de Base”, o que foi tomado por essas pessoas como uma iminente “ameaça comunista”. Essas marchas aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte Curitiba e algumas cidades do interior, e foram encabeçadas pelos setores conservadores da sociedade brasileira, pelo clero e pela dita “família brasileira”.

 

Autor: Pedro Wigand, Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense e integrante  da Linha de Pesquisa “Cinema e Ditadura em Plataforma Virtual”, ligado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq:  “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”.

Filmes que dialogam com esta temática:

15 filhos – Maria Oliveira e Marta Nehring (Documentário, Brasil, 1996.)

O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias – Cao Hamburger (Drama, Brasil, 2006.)

Repare bem – Maria de Medeiros (Documentário. Brasil, 2012)

Zuzu Angel – Sérgio Resende (Drama, Brasil, 2006.)

 

 

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