Greves

A greve representa uma manifestação social, característica das novas relações sociais de trabalho, um código específico de protesto popular. Sua especificidade veio a se formar, reflexivamente, em um contexto histórico de transformações humanas – modernidade, globalização da cultura ocidental e organização capitalista. A relação patrão/trabalhador, empregador/empregado, burguês/proletário, torna-se um dos cernes da sociedade moderna e contemporânea, direcionando o conflito para um novo campo, os das classes sociais. A sociologia do conflito, baseada na dialética marxista, explica que o fenômeno do conflito universal entre força hegemônica e subordinada, se evidencia no próprio materialismo histórico das civilizações, isto é, na linearidade das relações de poder da história – faraós e hebreus, patrícios e plebeus, senhor e súditos, burguês e proletário. Mas que dentre a essa estrutura universal, cada momento de seu processo constituiu uma própria configuração social das relações de trabalho. A greve, se encontra por sua vez no seio da luta operária na modernidade, frente a uma industrialização maciça, uma urbanização desenfreada, proletarização e institucionalização do trabalho, uma situação de atravessamentos aberta entre empregado, empregadores e Estado, tornando-os centrais na organização da sociedade. Criado e usado como instrumento de luta das camadas populares dos trabalhadores, a greve se tornaria um instrumento global e seria usado em diversas lutas contra governos e grupos autoritários.

Instaurada a ditadura militar brasileira, em 1964, os trabalhadores foram um dos primeiros alvos de perseguições do regime. Não somente a perseguição política se tornou um instrumento de controle das massas trabalhadoras, mas medidas socioeconômicas (arrocho salarial) também fizeram parte do plano de governo da ditadura. Seguindo-se uma onda repressiva e manipuladora por parte do Estado e empresas, os trabalhadores logo buscaram formas de mobilização e ação direta frente a precarização de seu trabalho e censura de suas organizações. A greve, dentre a tantas outras formas de luta, foi de essencial importância e magnitude no combate à ditadura e suas medidas neoliberais.
Desde o início as greves se fizeram presentes nas ruas, fábricas e campos, onde em março de 1968, houve a primeira greve de alcance representativo e mobilizador, foi em Contagem, Minas Gerais, que os trabalhadores mineiros da siderúrgica Belgo-Mineira se manifestaram contra as medidas imposta pela ditadura, foram 1200 operários que cruzaram seus braços e reivindicaram o reajuste salarial de 25%, uma vez que os preços dos produtos subiam mais rapidamente que seus respectivos salários, desqualificando seu valor de compra e explorando sua mão-de-obra. Dentre o período de 1968 a 1979, ocorreram diversos focos de greves e mobilizações dos trabalhadores, mas sempre restrito em âmbitos locais que logo eram reprimidos e abafados, em 1972 por exemplo, a Ford de São Bernardo foi paralisada por seus operários, mas que logo teve a presença de militares para impedir seu avanço. É a partir de 1978 que teríamos o início da longa jornada de greves, marcando uma era denominada “Novo Sindicalismo”. Os trabalhadores da empresa Saab-Scania são um exemplo desta manifestação, realizaram o ato de entrarem na fábrica e cruzarem seus braços demonstrando que enquanto não houvesse atendimento das suas necessidades, não haveria trabalho e consequentemente produção. Negociações foram logo encaminhadas para o atendimento das necessidades e obstrução da fábrica, acordos foram realizados, mas não cumpridos. Assim que temporariamente foram realizadas negociações entre os trabalhadores e a empresa por intermédio do sindicato, a prática de suas realizações não foi concretizada e tivera como respaldo a repressão policial, entretanto desta vez não foi possível estancar o avanço das greves e outros diversos trabalhadores começaram a realizar o mesmo ato (Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz e etc.). A greve geral começa em 1979 e demonstrava a rápida expansão das greves pelo país, onde mais de 200 mil trabalhadores participaram das mobilizações operárias, principalmente dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Vide a todas as lutas grevistas realizadas no período ditatorial (1964-1985), sua importância na derrubada do regime empresarial-militar foi de notável representação, não somente na luta pelos direitos trabalhistas, mas nos direitos civis e humanos da sociedade, entender o papel de luta do operário é entender a manutenção da democracia. Destacamos em alguns filmes a importância do instrumento de luta do trabalhador, a greve, uma vez que seu uso é legítimo e democrático, usado como direito e dever na restauração das necessidades mais básicas sociais e na reivindicação dos direitos mais primordiais da política.

Autor: Gabriel Mamede, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”. Bolsista de Iniciação Científica/UFF.

Filmes relacionados

Eles Não Usam Black-Tie – Leon Hirszman (Drama, Brasil, 1981)

Referência Bibliográfica:

PRIORI, Angelo et alA Ditadura Militar e a violência contra os movimentos sociais, políticos e culturais. Maringá: Eduem, 2012.

MEMORIASDADITADURAOperários. São Paulo, [20–?].

 

Posted in Glossario.