Grupos de Extermínio

Os esquadrões da morte são um fenômeno brutal que fazem parte da história de violência do Rio de Janeiro. Desde a década de 1930 é possível perceber a utilização da violência policial e repressão do Estado como forma de aniquilação de opositores políticos e controle territorial eliminando os “indesejados” (supostos ladrões, assassinos, “vagabundos”…). A história do Tenório Cavalcante, por exemplo, figura política de Duque de Caxias, é uma importante sinalização do que estaria por vir.
Embora até então seja possível perceber apenas indivíduos ou pequenos grupos agindo de forma isolada, é a partir do “Grande Saque”, em Caxias, onde massas de trabalhadores esfomeados pela crise econômica de 1962 realizam saques em lojas pelo centro da cidade que se cria uma estrutura organizada de “proteção” a territórios. Como consequência, empresários contrataram policiais e armaram alguns civis para realizarem a segurança de suas lojas. Um ano depois foi criado o 6° Batalhão de Polícia Militar – atual 15° Batalhão – e a permissão da criação de polícias particulares em Caxias.
Essa estrutura mais organizada combinada com o golpe empresarial-militar de 1964 engendraram sólidas bases para a reprodução de um modelo que se aperfeiçoou para seu estágio atual, que são as milícias.
Desde o golpe, passando pelos anos 70 e 80, a polícia militar é um braço importante de estruturação da opressão em todo território brasileiro. Com a forte repressão, violações constantes de direitos humanos e pouca visibilidade e nenhum julgamento de atos criminosos de agentes do Estado, os grupos de extermínio se profissionalizam. Criam relações com o jogo do bicho em expansão na Baixada Fluminense, Zona Oeste e alguns outros bairros e municípios do Estado e se relacionam com empresários locais que os financiavam em troca de segurança.
Nos anos 80, com a abertura política e a suspensão dos Atos Institucionais, a mídia burguesa denuncia as mortes que acontecem em todo o Estado do Rio, associadas a grupos de extermínio. Pressionados pela pressão midiática, tais grupos recuam em suas atuações e se lançam, como forma de contrapor a imagem negativa das manchetes e, também, para expandir seus poderes, candidatos a vereadores, prefeitos e deputados sendo, muitos, eleitos pelo voto popular.
A dinâmica dos grupos extermínios tem sua máxima organicidade nos anos 90 chegando ao início dos anos 2000 com sua evolução para as milícias como conhecemos atualmente. O sociólogo da UFRRJ, José Cláudio Souza Alves, aponta cinco elementos dos grupos de extermínios presentes nas milícias, assemelhando, portanto, que as milícias têm como base o histórico organizacional desses grupos. São esses:
É composta por agentes de segurança do Estado e, algumas vezes, civis. Constituindo, portanto, um projeto do próprio Estado;
São assassinos profissionais em produzir danos sobre o corpo de outras pessoas;
Atuam com controle territorial de áreas;
Cobram taxas de seguranças;
Possuem trajetórias políticas.

Os grupos de extermínio são marcas do Estado brasileiro profundamente violento, que viola direitos e normaliza a expropriação da vida. Uma herança escravocrata aperfeiçoada pelas ditaduras e potencializado pelo neoliberalismo. Por último, segue uma lista de referências para quem se interessar pelo assunto.

Autor: Augusto Torres Perillo, graduando em Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, integrante  da Linha de Pesquisa “Cinema e Ditadura em Plataforma Virtual”, ligado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq:  “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”.

Referência Bibliográfica
ALVES, José Claudio S. Dos Barões Ao Extermínio: Uma História De Violência Na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Clio, 2003.

MATTOS, Vanessa de. Esquadrões Da Morte No Brasil (1973 a 1979): Repressão Política, Uso Abusivo Da Legalidade E Juridicidade Manipulatória Na Autocracia Burguesa Bonapartista. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, p. 331. 2016.

MENEGHETTI, Francis K. Origem e Fundamentos dos Esquadrões da Morte no Brasil. XXXV Encontro do ANPAD. Rio de Janeiro, 4 a 7 de Setembro de 2011.

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