Trabalhadores Rurais

A luta e a resistência popular dos trabalhadores rurais perpassam momentos para além da ditadura de 1964, entender sua existência neste longo período, requer um reconhecimento histórico e sociológico mínimo. Entretanto, focado no recorte da ditadura, observamos que neste período, dado a situação política que se encontrava, houve um maior e mais profundo cercamento e perseguição das terras e populações rurais do Brasil. Entender o papel político da classe rural trabalhadora é, simultaneamente, entender a construção da sociedade civil e política brasileira. Por ainda sermos um país agroexportador, de histórica produção pecuária e de respeitável extrativismo, devemos ainda mais conhecer a realidade das populações camponesas, que por de trás desta produção econômica exercem primordial papel, e que paradoxalmente apresentam minúscula representatividade política. Mas ao longo desses anos de exploração trabalhista rural, os camponeses mostraram mobilização e organização política de gradativo alcance, em 1961, por exemplo, passaram existir diversas federações das Ligas Camponesas pelo país, em 10 estados pelo menos se contabilizava sua presença institucional. Mesmo em um país baseado no latifúndio e histórica mão-de-obra escrava e servil, a classe camponesa emergiu organizada e focada na sua reforma agrária. “Reforma agrária na lei ou na marra” Francisco Julião.

A vulnerabilidade social que viviam os trabalhadores rurais do Brasil e o atraso de um reconhecimento político de seus direitos trabalhistas e agrários, demonstra a veracidade dos motivos que se queixavam seus membros. Nem mesmo na famigerada Era Vargas, símbolo estatal primeiro dos reconhecimentos políticos sociais trabalhistas, o trabalhador rural esteve incluído. A presença de banditismo e messianismo pelo interior agrário talvez seja uma demonstração de que os camponeses careciam de oportunidades de vida digna e justa, tornando-se um dos poucos meios de articulação própria. É a partir da década de 1940, que as Ligas Camponesas começaram a surgir pelo país, legitimadas inicialmente pelo Partido Comunista Brasileiro, mas que também contava com o apoio do PC do B, AP e até mesmo organizações não partidárias. Os direitos trabalhistas e a luta pela terra se tornaram suas principais pautas, mas que somente seriam atendidas parcialmente pelo Estado (pelo menos parte dessas pautas) em 1963, com o governo de João Goulart (1963-1964), com a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, que iniciou o processo de sindicalização rural, equiparando-o também aos direitos trabalhistas urbanos.

Em 1964, o Brasil sofre o golpe de Estado empresarial-militar, que impedia a realização de suas pautas políticas e restaurava modelos de relações trabalhistas verticais. Foram diversas perseguições aos líderes rurais – Gregório Bezerra e João Pedro Teixeira são exemplos -, desmobilizações sociais e políticas, cercamento, prisões, mortes e torturas, tornando-se inevitável a desarticulação agrária popular. Documento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) relata que: entre 1962 e 1989, mais de 1500 trabalhadores rurais foram assassinados. Somente no final da década de 70 que há uma retomada de mobilização política em torno da reorganização sindical e popular, como o foi o surgimento do MST na ocupação da fazenda Annoni, no município do Pontão, na região norte do Rio Grande do Sul. Ao passar dos finais anos da ditadura a força camponesa marcou presença pela luta e resistência dos direitos humanos infringidos e ignorados pelo regime militar.

O que através de alguns filmes pretendemos resgatar é exatamente uma memória de luta e sangue dos muitos trabalhadores e militantes que deram vidas pelas causas políticas e populares agrárias do Brasil. Acreditamos que através da sétima arte seu resgate seja feito por lentes que nos levem a um passado ainda presente em nossas relações atuais. A força camponesa ainda carece de maiores atenções, principalmente em períodos tão marcantes quanto a ditadura de 1964.

Autor: Gabriel Mamede, graduando em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense, integrante da linha de pesquisa “Cinema e ditadura em plataforma virtual”, vinculado ao grupo de pesquisa certificado no CNPq: “Subjetividade, Memória e Violência do Estado”. Bolsista de Iniciação Científica/UFF.

Referências Bibliográficas:

DEZEMONE, Marcus. A questão agrária, o governo Goulart e o golpe de 1964 meio século depois. História Rural no Brasil: ofício do historiador, pesquisa e ensino, Rio de Janeiro, n. 71, p. 131-154, 12 ago. 2015.

MEMORIASDADITADURA. Trabalhadores Rurais. São Paulo, [20–?]

JINKINGS, Ivana. Ligas Camponesas. São Paulo, 2015.

Filmes Relacionados:

Cabra Marcado Para Morrer – Eduardo Coutinho (Drama, Brasil, 1964)

Memórias Clandestinas – Maria Thereza Azevedo (Documentário, Brasil, 2004)

 

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